Mitologia do Kaos – Jorge Mautner

capaNão é à toa que o autor, desde seu primeiro livro, em 1962, afirmava que só uma leitura global da obra possibilitaria sua correta compreensão. Ao contrário de escritores cujos livros são independentes, Jorge Mautner pertence à gama de autores que, na recorrência e dissonância, na síntese e no paradoxo, criam uma obra contínua, una e interligada. Mais que Proteus, o deus capaz de se transformar em qualquer forma, a quem é recorrentemente comparado pela sua capacidade e facilidade de uso de diversas mídias, Jorge assemelha-se ao carvalho de Heidegger, permanecendo em suas transformações. Essas obras completas são um documento no sentido mais rico do termo. Não só pelo seu valor poético e artístico, mas pelo valor histórico, de relato pessoal de momentos e personagens marcantes destes últimos 50 anos, feitos por um artista sempre atento e perspicaz.

Saboreie alguns trechos:

A loucura de uma época não perdoa as loucuras de outra. Mas o certo é que eu tenho medo. Gosto de ter medo. O medo é que nem o calor. Por isso eu gosto do verão. No verão quando eu era pequeno meus pais brigavam e eu tinha medo das brigas deles e do verão. Agora quando eles brigam eu não sinto mais medo: sinto apenas ódio deles e fico nervoso e meu estômago ferve.” (pág. 14, vol. I)

Benjamim estava na praia? Não. Ele só muito mais tarde aparecia na praia para se banhar. Agora ele dormia. Era de manhãzinha. Jorge foi até uma loja e havia uma motocicleta à venda. Era cor vermelha. Jorge ficou namorando a motocicleta do lado de fora, e ela estava na vitrine. Passou uma velha tossindo. Velha, velha, povo terrível que morre de fome. Teu clamor é terrível. Jorge tapou os ouvidos sem querer, ato reflexo, escondeu a cara, não teve coragem de ver a famigerada velhinha passar tossindo. Covardia do ser humano mais bem provido de dinheiro ao ver a injustiça.” (pág. 81, vol II).